tatuagens

estava ouvindo uma playlist dessas que o Spotify sugere e parece que foram feitas exatamente pra ti, sabe?

pois bem, o nome dessa era “your time capsule”. bom, parando agora pra pensar, talvez ela tenha mesmo sido feita pra mim, rs.

enfim, o ponto é que começou a tocar Wonderwall e de repente é como se alguém tivesse começado a girar a manivela daquelas máquinas antigas de cinema, o filme começasse a rodar, as luzes se apagassem e eu fosse a única espectadora. Wonderwall é aquela música que começa do nada e de repente parece que o mundo inteiro parou pra ela.

a primeira vez que pude presenciar isso foi no Beco, em Porto Alegre, e foi com um dos meus melhores amigos. deve fazer uns 4 ou 5 anos e ele tinha praticamente me obrigado a sair de casa no Carnaval e quando vi lá estávamos nós, abraçados, com a cara cheia de tinta e cantando a plenos pulmões, olhando um pro outro, “you’re my wonderwaaaaaaaaaaall!”.

eu estava quase chorando.

foi lindo.

já a segunda vez foi um pouquinho mais longe de casa, em Berlin, no meio de um mochilão que havia decidido fazer sozinha, mas sozinha não estava mais. haviam uns 6 guris britânicos hospedados no mesmo quarto que eu e a gente virou quase irmãos em poucas horas.

aquela era possivelmente a minha primeira noite na cidade, nós estávamos no fim de um pub crowl, no meio de uma discoteca dos anos 80 (com aquelas bolinhas coloridas e tudo). estávamos eu e mais cinco deles ali nos divertindo, enquanto um havia se dispersado com outra pessoa qualquer (dessas que pegam uma paixão tua e usam isso pra te hipnotizar nas próximas horas e aí tu te ilude e a merda tá feita… sabe?). começou a tocar Wonderwall. nós nos entendemos pelo olhar. aparentemente essa era uma música-tema pra eles também e quando vi um deles havia saído do meio de nós pra tentar buscar o membro perdido. o membro perdido já havia caído na hipnose. então outro foi. mesma coisa. e aí eu meti na minha cabeça que iria e voltaria com esse guri comigo não importa o que acontecesse.

nem eu sei como fiz aquilo.

mas quando encontrei o dito cujo escorado num balcão com o outro cara, pedi licença, cheguei lá, balbuciei alguma coisa que não sei bem o que foi, e, no menor sinal assertativo do guri, o puxei pela mão e levei até a outra pista.

os outros 5 não acreditaram no que viram.

e nem eu. mas quando dei por mim estávamos todos nós abraçados numa rodinha cantando Wonderwall inteirinha e aquilo foi uma das cenas mais bonitas que tenho lembrança. lembro de ter pensado: “agora entendo o que Charlie quis dizer quando escreveu que se sentia infinito naquele livro!” e ter agradecido internamente por aquilo estar acontecendo e eu estar lá.

a terceira vez que a música tocou no meio de um momento memorável foi no final do ano passado, já aqui na minha cidade-natal. estava no meio de uma noite dessas que demoram a passar e, mesmo cansada, o corpo decide não dormir. em mim, particularmente, quando isso acontece sei que é hora de deixar a expressão sair numa folha de papel. era algo que me incomodava e incomodava muito.

quando uma pessoa que um dia tu julgou conhecer e passou a admirar tem atitudes TÃO distantes do que ela costumava ser antes de tu viajar que começa a te perguntar quando foi que essa criatura passou de amigo a completo desconhecido e por que raios tu só notou agora. e aí eu, na minha trouxa ingenuidade, tento entender. me colocar no lugar. ver o que pode ter mudado. tento fazer o possível pra me adaptar numa nova realidade. só que o que uma pessoa não quer, duas não fazem.

acontece que não sei lidar com finais que não terminam.

então tratei de pôr um ponto final e, devo dizer, foi bem dramático. mas tudo bem, eu sou assim. escrevi, escrevi bastante mesmo, e no final acabou com “and afterall you’re my wonderwall”. acabei aquela carta com a sensação de que finalmente entendi todas as nuances dessas linhas.

uma música, 3 lembranças, duas felizes e uma bem triste.

talvez músicas sejam assim tão poderosas porque também são tatuagens. usam de agulha, talvez algumas cores, mas, ao invés de marcarem a pele, tatuam as memórias.

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