Desci do salto.

De repente tudo fica muito nítido. Muito óbvio.

Às vezes demoram algumas semanas. No meu caso, anos.

A gente é uma soma de todas as situações que viveu e de todas as pessoas com quem conviveu. A gente influencia e se deixa influenciar e, na maior parte das vezes, nem mesmo se dá conta disso.

Eu, por exemplo, durante anos sofri com problemas que sempre julguei serem só meus. Minha completa e inteira responsabilidade. E então, num dia, numa briga, de repente, uma palavra gritada ali, outra retrucada ali, e toda a perspectiva do negócio mudou.

Me dei conta que tudo o que eu fui sempre era um pouquinho dos outros também. E esse pouquinho foi crescendo e crescendo e crescendo até que de alguma forma a minha identidade se fundiu com a deles.

A minha timidez não é só minha. Esse lado contido que por um lado já me salvou de algumas situações, mas por outro me fez perder ótimas oportunidades, é herança de uma criação que começou antes mesmo de eu nascer. De uma avó que, quando mãe, criou seus filhos para cuidarem com o que os outros possam pensar, para conterem suas vontades – se essas não condizem com as regras de conduta ditas normais numa sociedade -, para aprenderem a se comportar. Serem obedientes e conformados com o que vier.

Enquanto isso, no extremo oposto, outra família nascia. Certamente com um pouco mais de liberdade na criação no que diz respeito a se divertir sem se preocupar com os níveis de loucura que tu está atingindo (por “loucura” entenda todo e qualquer comportamento que não é esperado em determinada situação ou de determinada pessoa). Se beber fosse necessário para a diversão, então bebida iríamos ter. O problema aqui é que ninguém lembra de levar em conta o quão transformador o álcool pode ser em uma pessoa. Hoje, bastam algumas horas pra que as brigas comecem e as mágoas contidas durante anos venham à tona.

Basicamente é por isso que eu evito bebida alcoólica além da dose que mantém meu equilíbrio emocional intacto quando saio pra qualquer evento.

De um lado ou de outro, a questão é que ambos acabam em merda. A diferença é que a merda contida te atormenta internamente, enquanto a merda jogada na cara dos outros causa o alvoroço em tempo real mesmo.

Dependendo o lado da família que cria o evento, uma versão diferente de mim é exigida.

No meio dessa guerra emocional é exatamente onde eu me encontro.

 

Apesar de tudo isso, tem também um ponto onde as linhas convergem: julgamento alheio. Pára de gritar! O que os vizinhos vão pensar da gente? Pára de comer tanto! Parece desesperada! Não desobedece a mãe e o pai que Deus castiga! Releva o que a vó diz. Não responde, não adianta. Aliás, não discute com ninguém. Engole sapo e cala essa boca que é melhor. Tu vai sem salto num casamento? Tu acha mesmo que todo mundo aqui tá gostando de usar salto? Aguenta a dor nos pés e vai ir de salto sim! Tu tá RIDÍCULA de sapatilha. Vai tomar vergonha nessa tua cara e coloca o salto de volta!

As fases vão mudando. O terror psicológico vai crescendo. Na escola, é o que os colegas vão pensar de ti. Ou os do trabalho. Ou os da universidade. Quando sai, é o que os amigos vão pensar de ti. Ou os conhecidos. Ou os desconhecidos. Aquelas vozes vão ficando mais altas e mais altas e aquilo tudo é ensurdecedor e tu vai pirando e… De repente, abaixa o volume. Tu te desconecta de todo o mundo.

As roupas que tu usa já não são tão básicas e normaizinhas. Elas dão lugar às camisetas de banda, às roupas rasgadas ou recortadas, que tu mesma fez em casa. O teu cabelo já não é mais tão certinho simplesmente porque tu acha melhor que fique bagunçado. Se tu quer ir pra casa noturna de All Star tu vai. Se tu usa óculos enquanto todo mundo ao teu redor usa lente, aprende que também pode. Se tu tem vontade de sair de chapéu, mesmo sem nunca ter vestido antes, é exatamente isso que tu faz. Se de repente tu quer trocar o tradicional batom cor de boca por um vermelho escuro, um roxo ou um preto, tu vai lá e pinta. Até os pingentes dos colares que tu usa têm algum significado pra ti. Tudo na tua aparência de repente reflete um pouquinho da tua personalidade. Tu te sente mais à vontade sendo quem tu é. Tu atrai gente mais parecida contigo e nem percebe o porquê.

Tu sai do teu casulo, do teu quarto, onde tu pode decidir exatamente o que vai acontecer em cada hora do dia, e resolve dar uma chance ao desconhecido. Começa a dizer “sim” pros convites que teus amigos fazem pra ir em lugares que tu nunca foi, por mais improváveis de tu gostar que eles sejam. Quebra preconceitos. Um mundo incrível começa a se desvendar bem diante dos teus olhos e nem tão longe da tua casa.

Recebe convite pra um emprego novo. Diria “não”, como de costume. Mas sabe o que foi? O convite veio na fase do “e por que não?”. E assim começou a próxima onda de mudanças – que está sendo bem além do âmbito profissional. Ainda bem.

Agora já passa mais tempo fora de casa, se deixa influenciar não só por outros ambientes, mas por outras pessoas também. Descobre uma versão melhor de si mesma. E isso vai além da tua percepção. Agora tu já consegue dizer “não” pra quem tu só via por obrigação moral. Tu consegue fazer mais piadas – coisa que exige espontaneidade e, por consequência, ausência de preocupação com julgamento alheio. Se riu alto no meio do casamento bem quando a música parou – tal qual Chaves falando do professor Girafales quando o próprio chega, junto com o silêncio instantâneo da turma – isso já não é mais motivo pra paranoia ou pra gastar as horas seguintes pensando nas 1001 possibilidades de desfechos diferentes. Resulta em mais risadas. Mesmo com repreensão da tua família, julgando aquilo crime mortal.

Sabe o que é? Tu está mudando.

E descobrindo que tem vezes que, pra te descobrir, é necessário te afastar de pessoas que tu ama – ao mesmo tempo em que tu esbarra com outras pra aprender a amar.

Olá, evolução. Seja muito bem vinda!

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s