A vida que passa pela janela

Estava atrasada, como sempre. Enquanto comia apressada uma fruta, fui quase que inconscientemente caminhando até a sacada. Olhar pela janela faz um bem tão grande – e é sempre bom dar atenção ao que faz bem (foda-se o horário).

Chovia muito. O dia era cinza e fazia muito frio.

Logo em frente à minha sacada tem um poste de luz. Lembro que foi um desapontamento gigante logo que me mudei para esse apartamento e percebi aquele troço gigante do alto do meu terceiro andar. Passado um tempo, mudei completamente de opinião e passei a amá-lo. Tudo porque postes e fios de luz parecem atrair seres muito amáveis e livres: os passarinhos.

Não entendo muito de passarinhos – mas já aprendi muito graças a eles. Às vezes por conhecimentos gerais de alguma visita, às vezes por observação mesmo.

Ok, voltando à cena da janela.

Olhar pela janela me faz divagar sobre um milhão de coisas e a escolhida da vez foi a moradia dos passarinhos. Tem um tempo já, no poste de luz um joão-de-barro construiu seu lar. Não sei há quantos dias, talvez semanas ou mesmo meses, começaram a crescer algumas plantinhas verdes lá no barro da casa do joão. Eu só percebi hoje.

Fiquei por um tempão olhando para aquela plantinha tentando entender que raios era aquilo, se o joão tinha resolvido fazer um jardim em cima do concreto e, por falar no dono da casa, onde estava ele? E com toda essa chuva, será que a casinha dele, mesmo construída pro lado contrário ao que a chuva sempre cai (essa foi uma das descobertas por cultura popular que fiz), será que não… sei lá, alaga? Ou desmancha? Tadinho do bichinho, será que não morre de frio?

E os olhos foram percorrendo a paisagem…

E pararam nas duas casinhas que eu e minha família penduramos na sacada há anos. Uma delas, eu mesma que pintei num daqueles projetos paralelos de pintura que fiz enquanto ainda estava no colégio e tinha tempo pra essas coisas. Fiz porque achava bonitinho e, num belo dia, um passarinho decidiu que ali iria ser o lar dele. E casou. E chocou seus ovos. E teve filhotinhos. E eu tive a honra concedida pelo universo de presenciar o primeiro voo de um deles.

Então eles cresceram e… voaram.

Voaram alto… mais alto… e ainda mais.

E casaram.

E voltaram!

Deram continuidade à árvore genealógica da liberdade na mesma casinha em que nasceram. E assim tem sido durante toda primavera e todo verão.

Então a terra girou, as estações mudaram, o inverno chegou.

Junto com o calor, foi embora a vida que brotava diante da minha janela.

Tudo o que eu via ali eram resquícios das histórias que haviam sido construídas quando tudo florescia. Algumas palhas que transbordavam da entrada da casinha azul (que havia se transformado em saída). A casinha laranja, antes tão alegre, agora se transformara em um baú de lembranças. E aquela coisa verde estava um pouquinho longe de ser um jardim… Era limo que brotava do barro do lar do joão, que resistia bravamente ao vento e à chuva constantes do alto daquele poste frio – e, agora, sem vida alguma.

Lá vem o inverno.

E eu não vejo a hora de a primavera voltar.

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