Ei, acorda!

Eu não sei em que ponto, exatamente, a sociedade se perdeu e as pessoas começaram a ficar hipnotizadas do jeito que estão hoje.

– O que tu quer fazer quando crescer?

– Ah, eu queria mesmo MESMO tal coisa, mas isso que eu escolhi agora dá retorno mais rápido, então… né… fazer o quê?

Tá, peraí. Mas tu tá anulando a tua vida em nome de quê mesmo?

– Mãe, eu não quero fazer concurso público, sabe?

– Mas, filha, tu vai ganhar um salário tri bom.

– Mãe, eu não quero dar prioridade pro dinheiro, entende? Eu só tenho uma vida e, posso te assegurar, dinheiro realmente não ocupa espaço entre as coisas mais importantes que eu quero pra viver.

– Eu me preocupo contigo, sabe? Como tu vai sobreviver depois que eu e teu pai morrermos?

– Falou bem. SOBREVIVER. Sobreviver pode ser passar 8h por dia enclausurada em um emprego que te tira aos poucos a sanidade mental pra que, nos teus 30 dias de férias por ano, tu gaste rios de dinheiro em entretenimento. Por que? Porque tu sabe que nos outros 11 meses do ano tu vai estar preso na tua própria vida. Quer dizer, eles sabem por ti.

– Ah, bom, então tu acha que tu vai viver de… ~amor?

– Olha, do fundo do coração, eu espero. Porque o dia que eu perder isso, não vai mais fazer o menor sentido viver. E se for pra estar viva apenas ~sobrevivendo~, me desculpa, não vai rolar.

Eu me nego a entregar minha vida nas mãos de gente que só se importa com o quanto eu vou RENDER por ano, sabe?

Eu não quero mais papéis, números, notas altas. Porque isso só desperta o pior do ser humano. Tu já parou pra te perguntar o motivo de tu sofrer todo dia de dor de cabeça? Ou de estar sempre estressada, tremendo, enquanto decide se vai engolir o choro e virar as costas ou se vai levantar o tom de voz e partir pra baixaria? Ou de o teu estômago doer só de pensar no dia seguinte? Ou de tu não conseguir descansar nem na hora de dormir, de tanta preocupação com a burocracia do plano de saúde, do cancelamento do pacote de telefonia ou do valor que deu nessa semana no supermercado, muito mais alto que na semana passada, apesar de as sacolas estarem reduzidas pela metade (tal qual o teu salário)?

Por que é que tu tá sempre correndo mesmo? Pra não chegar atrasada? E por que tu NUNCA para? Por que cada noite tu dorme menos horas?

Respira. Só isso. Te dê esse direito.

Tu tá ligada que tem uma montanha gigantesca de plásticos que não estariam lá se não fosse a obsolescência programada, não tá? E por que raios essa bosta desse notebook que tu tem na tua frente é programada pra morrer antes mesmo de nascer?

Por que a alface sem agrotóxico é muito mais cara do que a que tem o veneno?

Por que é preciso pagar caro se tu quiser que teus filhos tenham uma educação boa o suficiente pra facilitar o futuro intelectual deles?

Por que o moletom daquele cara é 10x mais caro que o meu, se a única coisa que difere um do outro é um “gap” gigantesco bordado na parte da frente?

E por que os haitianos estão precisando se sujeitar a todo tipo de humilhação que passam aqui nesse país? Como será que era lá no lugar de onde eles vieram?

Tu consegue imaginar?

Eu não consigo.

A única questão que tem tirado o meu sossego (e, pelo visto, vai continuar assim a vida toda) é:

Por que essa porra desse sistema colocou dinheiro na frente do mais importante de tudo, o essencial pra qualquer vida decente: a HUMANIDADE? E por que ninguém quer ver que é só mudar o foco da coisa pra melhorar o mundo pra todos nós?

Tá todo mundo olhando pra direita, sem perceber que é na esquerda que está a solução. E seguindo cegamente o caminho, um atrás do outro, sem questionar, sem se revoltar. Apenas em passos compassados, cada vez mais fracos, até que um dia, vencidos pelo cansaço, deixam de ser. E acabam se tornando mais um corpo que passou pelo chão batido, pisou nas mesmas pegadas que já estavam carimbadas ali, ocupou um espaço e… deu. Fim.

Onde tudo isso se perdeu?

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