Sobre viver

(Os Dharma Lovers – Canção para minha morte)

O amor existe.

Existe?

Me fiz essa mesma pergunta tantas e tantas vezes. Logo eu, uma romântica não assumida, duvidando do amor. Como pode, né? Tenho lá meus motivos, afinal. Ou acho que tenho. Sabe qual o problema? A gente tem tendência a sempre pensar no amor como um casal. Quando, na verdade, existem tantos amores diferentes por aí. Talvez tu até tenha descoberto um deles, mas nem te deu conta.

Pra mim, a realidade foi escancarada hoje. Junto com um nó na garganta, uma queimação no peito e algumas lágrimas riscando o rosto.

Eu conheci o amor. Na forma mais pura que a natureza humana me permitiu.

Nos ocupamos vivendo o agora, sem lembrar que existia o depois; achando graça nas coisas simples; encontrando a beleza da diversidade na mistura de sotaques; celebrando a oportunidade que a vida nos deu de habitar o mesmo lugar por alguns instantes – tempo suficiente para que duas almas irmãs se reconhecessem.

A gente nunca pensou em como seria quando o futuro chegasse, sabe? Até porque “na nossa lista de convidados o tempo não entrava sem presente”. Colecionamos histórias, gargalhadas e fotografias.  Prometemos que, mesmo que daqui a pouco tu estivesse em um avião atravessando o oceano sem data certa para voltar, iríamos nos ver em poucos anos. O que, obviamente, não foi o suficiente para que as emoções parassem de transbordar dos olhos e encharcassem nossas camisetas por completo. Eu nunca me vi tão emocionada por qualquer coisa nessa vida. Eu nunca vi meus pais e meu irmão do jeito que vi naquela noite. Eu nunca imaginei que pudesse nascer tanto afeto por alguém em tão pouco tempo. Nunca soube como é incrível ter uma irmã… Até tu invadir, pouco a pouco, as nossas vidas.

Semana passada fui até a sacada para ver as estrelas. Lembro da posição delas na véspera de tu partir do Brasil, um ano atrás. Quando eu não conseguia mais fingir ser forte e fugi para a rua, para olhar o céu e pensar que, estivesse onde tu estivesse, tu veria o mesmo céu que eu. Acreditei, na minha ingenuidade, que amenizaria um pouco a saudade. No dia seguinte, antes de sair de casa, resolvi usar novamente aquela pulseirinha meio hippie e completamente abençoada que veio aí de Portugal quando tu ainda estava aqui. Eu senti como se fosse um pedacinho de ti que ficou comigo. Porque ali, naquela simples pulseirinha, estava guardado todo o amor e a gratidão do mundo. Sabe, é bem louco pensar que tua família, aí em Portugal, um dia se dedicou a escolher ela para mim. Fico imaginando o lugar de onde veio, fico imaginando teus pais escolhendo e, também, o dia que os conheceria. Sei que são um pouco meus também. Assim como meus pais são teus. Nós fomos presenteadas com duas famílias e só em 2013 que descobrimos. Que felicidade gigante a nossa!

Mal sabíamos que um ano depois, no mês do meu aniversário, sofreríamos essa ruptura. Pior: que seria tão rápido. Que em 2013, ainda, os últimos acordes estavam sendo escritos e nós nem desconfiávamos. Os médicos, nas suas leituras de exames, não tiveram a sensibilidade de ouvir a música, baixinha, que anunciava que os planos estavam mudando. Eles estavam ensurdecidos pelo caos do hospital. As notas estavam sendo abafadas por ele. Mas a música foi aumentando o volume. E a morte foi criando raízes. A dor aumentava. Mas os médicos não percebiam. Não eram eles que estavam sentindo.

E o sofrimento cresceu tanto, mas tanto, que se tornou insuportável. E ela precisou ir para junto dos anjos para ficar livre da dor. E eu não acreditei quando tu me contou que estávamos órfãs de uma de nossas mães. Eu li de novo. E de novo. E de novo. E precisei correr para o meu quarto quando as palavras que os olhos liam chegaram ao coração.

O câncer ainda não chegou em mim diretamente, mas me corrói como se tivesse. Ele destruiu a minha avó. E destruiu a tua mãe, que também é um pouco minha. E do mesmo jeito, com os mesmos erros humanos, com a mesma dor. Ambas, sem que eu pudesse abraçar uma vez sequer. Eu me pergunto se isso tudo é só coincidência ou se é um sinal maior do universo. Nunca estive tão perdida como estou agora, tentando encontrar um sentido nisso tudo.

Queria tanto não ter sido tão idiota a ponto de postergar até nunca mais a surpresa que quero te enviar. Queria que teus pais, teu irmão e teus avós também vissem, sabe? Queria que eles sentissem o bem que fizeram só pelo fato de terem colocado uma pessoa tão incrível no mesmo mundo que a gente.

Só que a dona morte foi mais rápida que eu. Eu espero, de verdade, que ela seja apenas o nome que damos para o processo de troca de dimensão. Desses roteiros de viagem da vida. Espero um dia poder dar um abraço bem forte na tua mãe e agradecer ela por ter sido tão sensacional no lado de cá. E espero que, antes disso, eu e toda a minha família consigamos abraçar vocês, aí do outro lado do oceano, do jeito que queríamos estar fazendo agora. E que nesse gesto tão genuíno transborde todo o amor que sentimos por vocês.

Porque quando almas irmãs encontram a mesma sintonia, não há o menor espaço para o tempo ou a distância. Eles um dia acabam.

Enquanto o amor… Ele nos presenteia com o infinito.

Um infinito só nosso.

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