Futuro, por favor, traga outro presente

Deitada na cama, esperando o sono chegar, observo no mural a nossa foto juntos. Sorridentes, descobrindo um pouco um do outro. Tínhamos acabado de nos conhecer. Tu gostou da minha camiseta e usou isso como desculpa pra iniciar uma conversa no meio de todas aquelas pessoas que eu nunca tinha visto na vida.

Barulho. Música alta.

O que tu falou mesmo?

Ah, sim, sim, sou de lá mesmo. O que? Tu conhece? Como assim?

Ainda lembro do teu olhar naquele dia. De tudo, na verdade. Cabelo bagunçado, barba por fazer, a pintinha do lado da boca e charmosas covinhas que se exibiam nas tuas bochechas cada vez que tu sorria.

Eu achei que estivesse sonhando.

Delirando, na verdade.

Ah, sabe como é. Sono acumulado, viagens longas, perrengue, arrumar-se rápido (mesmo o corpo suplicando por um pouco mais de descanso), corridas pra chegar a tempo, horas que não passavam nunca naquele lugar frio, com cheiro de vômito e música boa. Com uma companhia que tinha me trocado por outra que conheceu naquela noite. Eu estava zonza. E tu era um cara muito legal.

Mas eu sou idiota. E tem noites que essa idiotice insiste em falar mais alto. Essa foi uma delas.

Ainda lembro de ti se aproximando e de mim. Eu acabava de perder de vista minha companhia que tinha me trocado por outra (e que agora estava sozinha novamente). O que eu fiz?

Eu poderia ter ligado o foda-se, assim como fizeram comigo, e curtir aquele momento contigo. Mesmo querendo que estivéssemos nos conhecido em qualquer outro lugar que não ali, onde pudéssemos nos sentar sem medo de nos sujarmos com coisas nojentas, olhar um nos olhos do outro e conversar sem precisar pedir “o que foi que tu disse?” a cada 10 palavras proferidas. Mas essa é a minha vida e, como sempre, fiz dar merda.

Te disse que estava acompanhada e saí à procura da companhia que tinha me trocado antes. E tu saiu da minha frente tão rápido quanto a velocidade que o som se movimenta no ar, super sem graça, se desculpando. “Não, não, fica só na amizade”

Sim. Te troquei por alguém que antes tinha me trocado. Mesmo querendo totalmente o contrário, meu altruísmo, babaquice, insegurança, ou seja lá qual for o nome disso, falou mais alto mais uma vez.

E aquela fotografia do meu mural nunca foi revelada.

Foi uma pequena lembrança na mente de quem nos viu naquele instante. E eles já esqueceram, eu sei.

Aparentemente, a única que não esqueceu nem um detalhe fui eu.

 

“E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s