sobre 2 de novembro

6h47 da manhã de sexta-feira. ainda não dormi. tenho medo de admitir até pra mim mesma que são quase 7 da manhã e ainda não preguei o olho. e não sei porque

21h13 da noite de sexta-feira, dormi de manhã na frente do computador, no final da segunda linha. já tinha desistido de escrever qualquer coisa, mas o dia de hoje doeu.

eu imagino que os dias é que passam por nós, e não nós por eles. nós estamos todos de pé em algum lugar asséptico, sem cor, sem cheiro, sem luz, mas que não chega a ser uma vazio, e os dias passam por nós, nos atravessam mesmo, tocam cada célula, por fora e por dentro. alguns passam como uma brisa leve e agradável, outros como um furação; alguns passam com cheiro de flores, banho tomado ou mar, e outros vêm numa tentativa quase insuportável de nos sufocar; outros são frios e iniciam pelo nosso coração um congelamento que rapidamente se espalha por todas as veias e artérias, e aí nós precisamos daqueles aconchegantes para nos salvar de uma morte gélida, daqueles que chegam como a sensação de moletons largos e edredons nos abraçando.

o dia de hoje foi como um golpe no peito. eu estava lá de pé, esperando ele passar, como sempre; e nada acontecia, nem brisa nem furação, nem frio nem calor, apenas uma assepsia total. dormi pra esperar, parecia que não ia passar nunca. acordei e nada, me levantei e finalmente o vi chegando. ele vinha a uns duzentos quilômetros por hora, compacto, retangular, assim do tamanho de uma foto, bem na direção do meu peito. fiz cara de pavor, meu coração acelerou.

pausa.

quando o dia já está ali, não há mais nada que se possa fazer. não dá pra parar o tempo, não adianta se encolher, não há lugar para se esconder. a única alternativa é abrir os braços, fechar os olhos, e aceitar o que está por vir.

continua.

confesso que não consegui abrir os braços, mas serrei os olhos, virei um pouco o rosto e olhei assim de lado, como quem não queria aceitar. e ele veio, direto no peito, me jogou longe, cena digna de filme. falta de ar, coração acelerado, mãos suando e dor, muita dor enquanto eu voava no ar. caí feito uma bola de canhão num chão de pedra frio e molhado, ainda fui tombando alguns metros para trás depois que bati no chão.

quando tudo ficou estático novamente, abri os olhos. muito frio, quase não podia me mexer, a sensação era muito ruim. olhei para trás e vi aquele retângulo em forma de foto que me atravessou indo embora; em sua parte de trás estavam os dizeres “eu sou a verdade”.

confesso ter sentido um certo alívio, até uma certa gratidão por este dia ter chegado tão depressa. as consequências poderiam ser consideravelmente desastrosas se ele demorasse um pouco mais.

sabia que depois que o corpo esfriasse aquela dor ficaria ainda pior. é hora de começar a fazer os curativos.

 

Créditos: bagagemescrita.tumblr.com

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