Batizado universitário (vulgo trote) – Parte 2 de 2

Parte 1

Alívio por finalmente ter acabado aquela agonia de “afinal, esse trote vem ou não?”. Preocupação por já ter visto os vídeos de trote de Comunicação (em várias universidades) do ano passado e meio que conhecer a fama deles. Enfim, a hora era aquela e não havia escapatória.

Uns dos veteranos nos amarrou com barbante pelo passa-cinto (é esse o nome?) das calças, enquanto outros passavam com uma caixa pra recolher um dos nossos tênis. Nós fomos conduzidos pro lado de fora do estúdio. Nesse caminho, que parecia mais longo do que na ida, brotavam veteranos sabe-se lá de onde munidos de batom preto – usado pra fazer um bigodinho tendência em cada um de nós -, litros de tinta de todas as cores imagináveis, e muitos, MUITOS flashes. Era tipo um percurso de tapete vermelho, só que sem sem o glamour e… Bem, sem o tapete.

Lá fora chovia. Eu tirei minhas meias brancas e guardei no bolso, pois pretendia usá-las no futuro. Durante o percurso com barbante nas calças nós passamos por uma das praças de alimentação, uma boa parte do campus e um lado obscuro, onde um dos veteranos passou por nós jogando água com um regador enquanto outros milhares jogavam quilos de farinha na gente.

A prova de que não estou exagerando na-da na descrição da cena.

O tanto de farinha que eu respirei e comi forçada dava pra fazer bolo pra toda a população carente do estado e ainda sobrava. Tudo isso foi ao som de uma música ridícula inspiradora que consistia basicamente num refrão assim: “mãos para o alto, bixinho, mãos para o alto”. Pra quem não sabe, “bixo” é o nome que levam os calouros (ou caloiros, em Portugal, como aprendi ontem). Enfim, a situação beirava o ridículo, mas ainda não era o bastante. A única coisa que eu conseguia fazer era tossir e cuspir farinha encher os pulmões e rir.

Passando por uma outra turma de calouros. Infelizmente, a câmera e a chuva não favoreceram a captura correta da farinha. :/

Depois do momento acima representado, foi cortado aquele barbante e os pobres bixos tiveram que se juntar à lá elefantinho. Assim:

Sinta o drama das crianças.

Caminhamos com um pé descalço por pedras e calçadas num trajeto que parecia interminável. Até chegarmos no Centro de Conveniência. Lotado, por sinal, já que era a hora do intervalo. Subimos no palco que tinha lá e tiramos fotos com os veteranos. E fomos informados que, para ter nosso calçado de volta, teríamos que mendigar por contribuição financeira por todo o campus, até fechar mais ou menos 10,00. E teríamos que convencer a boa alma que doou o dinheiro a tirar foto com a gente. Em 25 minutos. E lá fomos nós.

Nesse meio tempo chegou uma repórter, olhou pra todos e disse:

– Preciso de alguém que esteja BEM melecada.

Olhou pra mim.
– TU! Vem cá!
Sim, fui entrevistada naquele estado sub-humano. Depois finalmente parti em busca do tênis perdido.
Não me lembro de ter pagado tanto mico em um dia só – e olha que, vindo de mim, a média é bem alta. Fui pegando o jeito da mendigagem. Não recebi uma mísera nota em dinheiro, pois todo mundo só dava moeda! Àquela altura do trote eu já estava me sentindo e cheirando como um bolo. Mas enfim, deu certo. Tive que contar lá na frente dos veteranos o dinheiro, enquanto uns tiravam fotografias da situação. Fiz um drama básico e peguei meu tênis de volta. “Esse foi com garra”, disse o professor pra quem a gente dava o esforço em forma monetária. Depois disso tive que dar um jeito de tirar toda aquela tinta da cara e dos braços, secar um pouco minha roupa e prender meu cabelo já duro de farinha. Meu casaco tava virado numa nhaca indescritível. Passei o maior frio no ônibus, na volta, e tive que tomar um dos banhos mais demorados da vida. Que sofrimento é tirar farinha de cabelo cacheado!
Apesar de tudo isso, estou – pasmem – agradecendo que foi assim. Pelo menos não jogaram erva, ovos, Pinho Sol ou vinagre, como fiquei sabendo que tiveram trotes depois. A única roupa que manchou, de tinta, foi minha regata branca. No resto é bem tranquilo, se você levar como brincadeira. Pra quê se estressar se dá pra rir, não é mesmo?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s